A manutenção de uma oclusão adequada após o tratamento ortodôntico constitui um grande desafio da prática clínica. Conforme dizia Oppenheim, “A retenção é o problema mais difícil na Ortodontia; na verdade, ela É o problema”. (1) Embora as recidivas possam se manifestar de diversas formas, o alinhamento dos incisivos inferiores costuma ser a principal preocupação citada na literatura. Para evitar este problema, as contenções fixas de fio espiral flexível mostraram-se eficazes. (2) Elas devem ser instaladas passivas, a fim de evitarem movimentos incontrolados. Entretanto, algumas complicações podem ocorrer ao longo do tempo após o tratamento. Os dois principais problemas de alterações pós-tratamento são a diferença de torque entre 2 incisivos inferiores adjacentes e a inclinação aumentada de um ou mais dentes. Neste post, ilustraremos um caso de cada tipo desses problemas.

 

Caso 1: Diferença de torque entre 2 incisivos inferiores adjacentes

A paciente queixava-se de uma contenção inferior frouxa, além de notar uma mudança de posição no incisivo inferior lateral direito. Surpreendentemente, tanto seu ortodontista quanto seu clínico geral desconsideraram esses problemas, portanto ela procurou uma terceira opinião. Clinicamente, observamos uma inclinação vestibular significativa do incisivo lateral. A raiz era quase visível do lado lingual. Uma tomografia computadorizada de feixe cônico mostrou a raiz quase completamente fora do osso cortical, incluindo a região do ápice. No entanto, a vitalidade do dente estava preservada, indicando que o nervo e o feixe vascular acompanharam o ápice. Neste caso, a paciente também apresentava alguns problemas funcionais, como a ausência de guias anteriores e laterais apropriadas. A falta de uma oclusão adequada na área anterior devia-se a uma discrepância de Bolton, com excesso de material dentário inferior. Portanto, o caso foi tratado com mecânica convencional e controle de torque individual e gradual para reposicionamento da raiz, ao mesmo tempo em que as guias funcionais foram restabelecidas após leve stripping e controle de torque anterior.

Fotos e imagens das tomografias obtidas antes (A) e depois do retratamento (B). Observe a reconstrução óssea em torno da superfície e ápice radiculares.

Caso 2: Aumento da inclinação bucal de um ou mais dentes

Este paciente queixava-se de uma mudança gradual, mas significativa, na sua arcada dentária inferior. Na verdade, os dentes anteriores do lado esquerdo estavam muito inclinados para a vestibular, enquanto os dentes do lado direito encontravam-se inclinados para o lado lingual. O paciente relatou dificuldade em mastigar, especialmente no lado esquerdo. Após o retratamento ortodôntico convencional, com ênfase no controle de torque individual do canino esquerdo, foram restabelecidas as posições dentárias e os movimentos de lateralidade com desoclusão nos caninos. Fotos antes e depois do retratamento.

Note as inclinações opostas entre os caninos direito e esquerdo antes do retratamento (acima). As posições foram corrigidas após o retratamento (abaixo).

Discussão e Dicas Clínicas

Os dois casos ilustrados representam as complicações mais comuns das contenções fixas inferiores. No caso 1, a causa foi provavelmente uma ativação indesejada do fio devido à sobrecarga funcional, como morder alimentos duros. No caso apresentado, utilizou-se uma mecânica de nivelamento padrão porque a paciente apresentava outras necessidades, como o restabelecimento de guias anteriores e laterais, especialmente no lado direito, em que os caninos não apresentavam boa intercuspidação. Conforme demonstrado nas imagens das tomografias, a raiz do incisivo lateral foi corretamente reposicionada em seu envelope alveolar. Se fosse um caso mais complexo, em que apenas um dente necessitasse de movimentação significativa, um aparelho customizado poderia ser confeccionado, de modo a controlar as forças aplicadas na unidade ativa e na unidade reativa. Alguns exemplos desses aparelhos guiados por sistemas de forças podem ser encontrados no artigo de Laursen et al. 2016. (3) No segundo caso apresentado, o problema era mais grave do que o primeiro, pois todos os dentes anteriores estavam mal posicionados. Embora uma deformação mecânica indesejada por sobrecarga possa ter causado o problema, não podemos excluir a possibilidade do profissional ter induzido uma deflexão elástica no fio durante a instalação da contenção.

Para a confecção das contenções fixas, sugerimos o uso de um fio trançado .0215″ para a maioria dos casos. Nos pacientes que necessitam de um controle perfeito do torque dos incisivos inferiores, a contenção pode ser feita com segmento de fio de aço retangular de .016″ X .022″. Além disso, alinhadores invisíveis podem ser utilizados juntamente com as contenções fixas, visto que pequenos deslocamentos dentários provocarão desadaptação do alinhador e isso será facilmente percebido pelo paciente. Para concluir, é importante enfatizar que os especialistas devem estar atentos às possíveis complicações das contenções. Pacientes e clínicos gerais também deveriam estar preparados e instruídos a detectar essas complicações, de preferência nos seus estágios iniciais.

 

Referências:

  1. Oppenheim, A.: The crisis in orthodontia, Part I: 2. Tissue changes during retention: Skogsborg’s septotomy, Int. J. Orthod. Dent. Child. 20:639-644, 1934
  2. Renkema, A.M.; Renkema, A.; Bronkhorst, E.; and Katsaros, C.: Long-term effectiveness of canine-to-canine bonded flexible spiral wire lingual retainers, Am. J. Orthod. 139:614-621, 2011.
  3. Laursen MG, Rylev M, Melsen B. Treatment of Complications after Unintentional Tooth Displacement by Active Bonded Retainers. J Clin Orthod. 50:290-7, 2016.