Destreza manual se aprende – dobrar arcos pode moldar seu encéfalo

Sim, praticar vale a pena! Vivemos a era da ortodontia digital, na qual alguns novatos podem se deslumbrar com as tecnologias oferecidas para movimentar dentes. Existem até mesmo aqueles que comemoram a suposta falta de necessidade de dobrar fios na ortodontia atual. Sem entrar no mérito desta estranha celebração (afinal, todo dentista deveria gostar de desenvolver suas habilidades manuais, não é mesmo?), o presente post tem como objetivo esclarecer aqueles estudantes que possuem MEDO de dobrar fios, alegando falta de habilidade inata para esse tipo de tarefa.

A boa notícia é que sim, você pode! Você pode aprender a dobrar fios com relativa facilidade. Assim como qualquer outra atividade motora que requeira treinamento, os primeiros movimentos (e resultados) são difíceis e desanimadores. Mas com a prática e um pouco de persistência, sua destreza manual se transforma de forma significativa. Isto foi o que mostrou um recente estudo realizado na na Universidade de Pécs, na Hungria. (1)

O ESTUDO

Calouros da faculdade de odontologia foram divididos em dois grupos (n=15). O “grupo treinado” foi submetido a um curso de 10 semanas (1 hora/semana) para aprimoramento da destreza manual. As atividades incluíam desenho livre, escultura em cera de formas geométricas e dentes, modelagem em cera macia e dobras em arcos. O grupo controle não participou do treinamento. Antes e após o curso, os voluntários realizaram testes de destreza manual (avaliação semi-subjetiva e objetiva- Fig.1) e exames de ressonância magnética do cerebelo.

 

Figura 1: O teste de destreza manual (Hamburg Assessment Test for Medicine-Manual Dexterity) foi avaliado pela primeira vez com a escala de Likert. A avaliação objetiva incluiu a comparação dos números de pixels relacionados às áreas de dobras específicas realizadas em fios de cromo (150 mm de comprimento e 0,8 mm de diâmetro). A primeira forma era um triângulo equilátero, a segunda era uma alça dobrada tridimensional e a terceira era uma alça bidimensional que continha três formas de onda. Imagem: Siman, B., Janszky, J., Perlaki, G. et al. Sci Rep 11, 6188; 2021 (1).

RESULTADOS

Os resultados dos testes de destreza manual do grupo treinado mostraram melhora significativa, enquanto não houve mudança notável no grupo controle. Os resultados das medidas de ressonância magnética demonstraram um aumento significativo no volume da substância cinzenta em ambos os lados do cerebelo do grupo de alunos treinados, indicando que essas alterações neuroanatômicas foram decorrentes do treinamento de habilidades manuais.

RELEVÂNCIA E PERSPECTIVAS FUTURAS

Embora o estudo tenha algumas limitações (o grupo de participantes era pequeno e a duração do treinamento bastante curta), os resultados mostram que o treinamento de habilidades manuais, por um período de tempo relativamente curto, pode estimular significativamente o desenvolvimento de destreza em estudantes de odontologia. Além disso, esta melhora pós-treinamento é mensurável com imagens de ressonância magnética e testes de destreza manual.

Os efeitos sobre o volume da massa cinzenta cerebelar são notáveis. A maioria dos neurônios do cérebro está localizada no cerebelo e suas funções no equilíbrio, na fala, nos movimentos dos olhos e dos membros estão bem estabelecidas. O cerebelo é essencial para processar o feedback visual durante movimentos controlados e prever a interpretação sensorial de eventos motores. Também está envolvido em habilidades mentais, como aprendizagem, cognição e linguagem. (2,3) Os mecanismos responsáveis ​​pelas alterações do volume de substância cinzenta não foram explicados no estudo citado. No entanto, vários estudos relacionados revelaram que as alterações volumétricas medidas por métodos morfométricos de ressonância magnética se correlacionam fortemente com a presença de crescimento de axônios e reorganização sináptica.

Para concluir, achei muito interessante a mensagem otimista extraída desse estudo: habilidades manuais podem (e devem) ser aprimoradas! Vamos usar essa alta plasticidade cerebelar a nosso favor.

Você não precisa ser um “Michelângelo dos arcos”, mas sim, você pode melhorar. Especialmente para alunos com maiores dificuldades, cursos de treinamento específicos podem ter um papel fundamental em sua preparação para a prática clínica.

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Referências:
1- Siman, B., Janszky, J., Perlaki, G. et al. Course induced dexterity development and cerebellar grey matter growth of dentistry students: a randomised trial. Sci Rep 11, 6188 (2021).
2- Jung, KI., Park, MH., Park, B. et al. Cerebellar Gray Matter Volume, Executive Function, and Insomnia: Gender Differences in Adolescents. Sci Rep 9, 855 (2019).
3- Koppelmans V, Hirsiger S, Mérillat S, Jäncke L, Seidler RD. Cerebellar gray and white matter volume and their relation with age and manual motor performance in healthy older adults. Hum Brain Mapp. 2015;36(6):2352-2363.