Esta semana me surpreendi com uma palestra de um renomado conferencista internacional, que discursou durante horas sobre as vantagens dos braquetes autoligados (AL) em relação aos convencionais. Em minha opinião, as dúvidas mais relevantes sobre esse tema já foram esclarecidas há algum tempo. Entretanto, o palestrante enfatizou que a experiência clínica com os braquetes AL pode não apenas proporcionar consultas mais rápidas, mas também permitir a obtenção de resultados mais rápidos, seguros, eficientes e com menor desconforto para os pacientes. Além disso, destacou que as respostas biológicas provocadas pelas forças leves e com pouco atrito possibilitam uma expansão mais fisiológica dos arcos dentários, com menor perda de osso alveolar e menos danos às raízes dentárias. Comparou ainda o tratamento ortodôntico a uma viagem, na qual o profissional e o paciente podem escolher o conforto e velocidade com que desejam chegar ao destino, dependendo dos instrumentos utilizados na jornada. O braquete AL poderia ser comparado a um avião, enquanto o convencional seria um carro.

Confesso que tive o ímpeto de deixar a conferência, pois não estava interessado em dicas de venda de tratamento, mas sim buscava novidades científicas sobre o tema. As informações científicas apareceram, mas infelizmente de maneira equivocada para uma adequada apreciação da questão. A fim de demonstrar que os braquetes AL provocam uma expansão mais fisiológica dos arcos, o conferencista apresentou diversos artigos sobre as maiores perdas de osso alveolar obtidas com procedimentos de expansão rápida da maxila, com ou sem assistência cirúrgica. O problema foi que ele não apresentou nenhum resultado sobre o que de fato estava sendo discutido: influência do tipo de braquete nas expansões. Ao final da palestra, os comentários gerais foram de reforço às vantagens dos braquetes AL, apesar das evidências científicas atuais não sustentarem a maioria delas (exceto no que se refere a consultas mais rápidas). Destacarei algumas a seguir:

Estudos com tomografia computadorizada de feixe cônico demonstraram que os braquetes AL – passivos e ativos – NÃO provocam uma expansão transversal mais fisiológica dos arcos dentários, nem na maxila [1],  nem na mandíbula [2]. Vamos considerar expansão fisiológica aquela obtida com forças leves, com mínimo de inclinação dentária, mais movimento de corpo e com maior preservação do osso alveolar. As magnitudes de forças liberadas por braquetes AL passivos são semelhantes às dos convencionais [3]. A expansão obtida com fios expandidos provoca o mesmo grau de inclinação dentária, seja nos segmentos posteriores ou nos segmentos anteriores dos arcos, quando diferentes tipos de braquetes são comparados [1-5]. Ou seja, a expansão depende muito mais do fio do que do braquete. As possíveis diferentes expressões de torque entre os braquetes são irrelevantes na expansão transversal. A quantidade (em graus e milímetros) e o tipo de movimento (inclinação e/ou translação) obtidos na expansão independem do tipo de braquete utilizado. Além disso, a quantidade de osso alveolar nas superfícies vestibulares dos dentes expandidos também independe do tipo de acessório utilizado. Estudos bem controlados em animais [6] e em humanos [1] comprovam a possibilidade de aumentarmos a espessura da cortical vestibular através dos processos de modelação e remodelação óssea. Entretanto, na maioria dos casos, o que ocorre é uma redução na espessura do osso alveolar vestibular, provavelmente porque uma parte significativa da expansão ocorre por inclinação dentária. Outros fatores importantes na determinação da estrutura óssea alveolar pós-expansão são as forças oclusais, o tipo facial e as diversas matrizes funcionais que interferem no estabelecimento das formas dos processos dentoalveolares. Ainda não compreendemos bem como essas variáveis influenciam a questão da estabilidade pós-expansão, e este é um dos motivos pelos quais precisamos de mais conhecimento sobre os limites fisiológicos de nossa atuação.

Nossas estratégias clínicas devem basear-se principalmente nas características individuais das más-oclusões, e não nos acessórios dos quais dispomos para corrigi-las. Preconizar o uso de um tipo de braquete para se obter uma expansão mais fisiológica não constitui, em minha opinião, garantia de obtenção de resultados mais satisfatórios. O que você acha de tudo isso?

Referências:

1- Cattaneo PM et al. Transversal maxillary dento-alveolar changes in patients treated with active and passive self-ligating brackets: a randomized clinical trial using CBCT-scans and digital models. Orthod Craniofac Res. 2011;14(4):222-33.

2- Almeida MR, Futagami C, Conti AC, Oltramari-Navarro PV, Navarro R de L. Dentoalveolar mandibular changes with self-ligating versus conventional bracket systems: A CBCT and dental cast study. Dental Press J Orthod. 2015;20(3):50-7

3- Pandis N, Eliades T, Partowi S, Bourauel C. Forces exerted by conventional and self-ligating brackets during simulated first- and second-order corrections. Am J Orthod Dentofacial Orthop 2008;133:738–42

4- Fleming PS, Lee RT, Marinho V, Johal A. Comparison of maxillary arch dimensional changes with passive and active self-ligation and conventional brackets in the permanent dentition: a multicenter, randomized controlled trial. Am J Orthod Dentofacial Orthop. 2013;144(2):185-93.

5- Atik E, Akarsu-Guven B, Kocadereli I, Ciger S. Evaluation of maxillary arch dimensional and inclination changes with self-ligating and conventionalbrackets using broad archwires. Am J Orthod Dentofacial Orthop. 2016;149(6):830-7.

6- Kraus CD, Campbell PM, Spears R, Taylor RW, Buschang PH. Bony adaptation after expansion with light-to-moderate continuous forces. Am J Orthod Dentofacial Orthop. 2014;145(5):655-66.