Ações exageradas para a solução de problemas mínimos. Esta pode ser uma interpretação da frase que intitula nosso post, atribuída ao filósofo chinês Confúcio. Mas o que ela tem a ver com a nossa profissão?

Resolvi escrever sobre o assunto, pois me preocupa a tendência atual pela busca de tratamentos velozes, simplificados e padronizados. Quando um palestrante famoso sugere uma sequência de fios em um evento, por exemplo, costuma-se notar uma agitação dos ouvintes, preocupados em anotar e não perder aquela dica importante. Entretanto, essa preocupação excessiva com consultas rápidas e espaçadas talvez não solucione efetivamente grande parte dos casos da clínica ortodôntica. Estou me referindo aos pacientes adultos, cada vez mais numerosos, nos quais fatores complicadores como perdas múltiplas, assimetrias e problemas periodontais costumam ser a regra, ao invés da exceção. Ou seja, nos pacientes em que a influência do processo de crescimento e desenvolvimento craniofacial é mínima, a influência do profissional passa a ser máxima. Não basta selecionar nossos aparelhos com base em dois ou três padrões com características específicas, e aguardar que uma sequência de arcos e o uso de elásticos intermaxilares resolvam problemas complexos.

Em primeiro lugar, devemos nos preocupar com o diagnóstico e planejamento dos casos. Na realidade, essas etapas não devem ser subestimadas nem mesmo em casos aparentemente simples. Em todos os casos, o profissional precisa estar atento aos componentes esqueléticos, dento-alveolares e musculares de cada má-oclusão tratada, bem como precisa entender e respeitar as limitações ósseas e periodontais de cada indivíduo. Além disso, os objetivos do tratamento devem estar bem estabelecidos desde o princípio, preferencialmente nos três planos do espaço. Essas são as reflexões mínimas necessárias para o profissional avaliar a necessidade de aplicação de uma mecânica mais customizada, ou considerar a possibilidade de uma mecânica mais simples e convencional.

Até mesmo em casos simples, o profissional deve fazer um plano de tratamento individualizado, para não correr o risco de fazer parte da rede da “Ortodontia Fast Food”, na qual aplica-se uma sequência padronizada de arcos com finalidade geralmente expansiva e alinhadora, finalizando com o uso exagerado de elásticos intermaxilares e uma intercuspidação questionável. Infelizmente essa receita tem crescido assustadoramente nos últimos tempos, inclusive com a participação de clínicos gerais que credenciam-se e capacitam-se a praticar a Ortodontia com enorme facilidade.

Finalizo o post com um caso extremamente simples e muito comum: paciente com uma boa oclusão posterior e uma queixa de apinhamento crescente nos arcos dentários. Escolhi o caso pois a oclusão posterior do paciente era semelhante à considerada ideal por Andrews (Foto 1). Entretanto, o apinhamento leve na região inferior incomodava muito o paciente, o qual relatava uma rápida progressão do problema. Em uma vista da relação inter-incisal, constatava-se a interferência do apinhamento inferior no arco superior, o qual também estava piorando segundo o relato do paciente (Foto 2).

Foto 1: Oclusão posterior com condições próximas às ideais descritas por Andrews. Foto 2: Interferência do apinhamento inferior no arco superior

     A aplicação de uma “Ortodontia Fast Food” neste caso extremamente simples seria como usar um canhão para matar um mosquito. A aplicação de uma mecânica convencional expansiva, nos arcos superior e inferior, resolveria os leves apinhamentos a custas de alterações, no mínimo temporárias, na oclusão posterior do paciente. Além disso, a falta de uma análise fundamental (discrepância dentária intra-arcos ou Análise de Bolton) poderia impedir a obtenção de guias anteriores adequados.

No caso em questão, havia um leve excesso de material dentário na região antero-inferior, o qual foi resolvido com um leve stripping inferior. A montagem do aparelho foi realizada somente em oito dentes inferiores (colagem passiva nos pré-molares), de forma que em quatro meses de tratamento com uma sequência simples de arcos (.013 CuNiTi, .014 aço, 16X16 CrCo e 17X25 aço com torque individual no 31) o problema foi resolvido facilmente (Foto 3).

Foto 3: Sequência básica do tratamento incluiu 1) stripping inferior, 2) alinhamento inicial com fios super-elásticos, 3) torque individual final com arco de aço. 4) após o tratamento

     Nenhum aparelho foi montado no arco superior, e notem como o leve desalinhamento superior foi resolvido somente com as forças musculares dos lábios (Foto 4).

Foto 4: Vista oclusal superior do antes e após o tratamento ortodôntico (o aparelho foi montado somente no arco inferior).

     Este caso foi solucionado com uma ortodontia minimamente invasiva, sem alterar os dentes que estavam bem posicionados, sem alterar a oclusão posterior que estava adequada e sem alterar a função mastigatória do paciente. Alinhadores invisíveis bem planejados também seriam uma opção para esse simples caso. O problema, portanto, está no planejamento. Não planejar corretamente, mesmo em casos simples, pode aumentar o poder de fogo (danos) das nossas armas (aparelhos). Se isso pode ocorrer em casos simples, imaginem nos casos complexos…