Frequentemente o ortodontista tenta prever os movimentos dentários através da “leitura” do arco. Esta “leitura” representa um método de inspeção visual, no qual o profissional insere uma extremidade de um fio ou arco em um braquete, ao mesmo tempo em que observa as mudanças lineares e angulares necessárias para que o outro braquete se aproxime da linha do arco. Por exemplo, a figura abaixo (Figura 1) ilustra um canino inferior extruído e com a coroa angulada para distal. Ao se encaixar um fio reto no tubo do molar, imagina-se que o canino deverá sofrer uma intrusão e um momento anti-horário, caso o fio seja inserido neste dente. Certo?… Errado!! A configuração estabelecida entre o fio e os dois braquetes – a geometria – neste caso gera apenas uma força intrusiva no canino, sem gerar nenhum momento. Este simples exemplo demonstra que a “leitura” do arco representa um método incorreto para a predição dos sistemas de forças gerados por um fio ou arco ortodôntico.

Figura 1. A. “Leitura” do arco. Para atingir o arco, o canino necessita intruir e a raiz girar para distal. Entretanto, este sistema de forças é incorreto (B). O correto sistema de forças neste caso gera somente uma força intrusiva no canino (C).

A inserção de dobras com o intuito de se realizar movimentos específicos pode complicar ainda mais a obtenção das forças desejadas, caso o ortodontista não tenha um conhecimento adequado de biomecânica. Imagine um sistema de “dois dentes”, sendo uma unidade representada pelo molar superior, e outra pelos incisivos (Figura 2). Se você quiser obter uma força intrusiva nos dentes anteriores, qual das situações abaixo irá gerar a força desejada nos incisivos?

fig2

Figura 2. A. Dobra em V no centro do arco; B. Dobra em V próxima dos incisivos; C. Dobra em V próxima do molar. Qual das 3 situações está correta?

Se você escolheu a opção A, a força desejada não estará lá, e se você preferiu a opção B você criará a extrusão dos incisivos, ou seja, o efeito inverso do esperado. A opção C representa a escolha correta para a obtenção da intrusão anterior. Um profissional experiente pode até mesmo intuitivamente perceber o sistema de forças gerado por uma determinada dobra ou ativação ortodôntica. Entretanto, a adequada previsão de todas as forças e momentos envolvidos em uma situação clínica requer muito mais conhecimento e experiência. Charles Burstone, o “pai” da biomecânica ortodôntica, estudou e denominou as principais configurações que nos auxiliam a entender os sistemas de forças que existem entre dois braquetes com variadas angulações. Estas configurações são denominadas as seis geometrias,1 as quais representam seis situações particulares entre as infinitas possibilidades que podem ocorrer quando inserimos um fio em pelo menos dois braquetes. A complexidade deste tema impede sua discussão em um simples post, portanto este assunto será discutido posteriormente em nossos próximos artigos ou videoaulas.

A dica de hoje, que serve como uma regra simples e confiável para o iniciante se familiarizar a visualizar as forças envolvidas em um sistema de “dois dentes”, baseia-se no artigo do Dr.Thomas Mulligan,2 um dos professores mais respeitados na área da biomecânica ortodôntica. Com essa regra você poderá 1) prever se existe alguma força sendo gerada (pois em algumas situações apenas momentos são produzidos); e 2) prever o sentido das forças nos “dois dentes”. É importante salientar que os momentos não deverão ser considerados inicialmente neste método de inspeção visual.

Como visualizar as forças de um sistema apenas identificando o local da dobra?

  • Sempre que a dobra estiver fora do centro do arco, haverá obviamente um segmento longo e outro curto do arco. Quando o segmento curto for inserido em um tubo ou braquete, o segmento longo apontará a direção da força produzida no dente que receberá o segmento longo. Enquanto que o dente que recebeu o segmento curto receberá uma força na direção oposta à apontada por este segmento.
  • Sempre que a dobra estiver no centro do arco, não haverá mais segmentos curto e longo, indicando que não haverá forças em nenhuma das unidades. Nestas situações, apenas momentos (de igual magnitude e sentido opostos) serão gerados nos dois dentes.

Para praticar a regra acima, realize os exercícios a seguir, identificando qual o sentido da força (caso haja alguma) nos dentes A e B. As respostas estarão descritas no final do post. Você vai perceber que o mesmo raciocínio pode ser aplicado em qualquer plano do espaço. Espero que essa regra o auxilie na visualização fácil e imediata das forças envolvidas quando se insere um fio entre dois dentes. Posteriormente, abordaremos como estudar os momentos, a lei de equilíbrio aplicada à clínica ortodôntica e muito mais.

testes

 

Referências:

Burstone CJ, Koenig HA. Force systems from an ideal arch. Am J Orthod.  1974; 65:270-89.

Mulligan TF. Common sense mechanics. 1.  J Clin Orthod. 1979 Sep;13(9):588-94.

Respostas: Teste 1) A: extrusiva; B:intrusiva. Teste 2) A:nenhuma; B: nenhuma. Teste 3) A:nenhuma; B: nenhuma. Teste 4) A:extrusiva; B: intrusiva. Teste 5) A:lingual; B: vestibular. Teste 6) A:vestibular; B: lingual.