A história da ortodontia está repleta de pessoas que dedicaram-se incansavelmente ao aprimoramento da especialidade. Talvez a personalidade mais marcante de todas seja o professor Edward  Hartley Angle (1855–1930), reconhecido como o “pai” da ortodontia moderna, principalmente por ter sido o grande responsável pela criação e reputação da especialidade. Dentre suas inúmeras contribuições, destacam-se a popularização do termo má-oclusão, sua classificação, e o desenvolvimento do aparelho edgewise (ou arco de canto), através do qual Angle visava controlar a movimentação dos dentes nos três planos do espaço.

Com exceção dos aparelhos invisíveis (ex. sistema Invisalign), que não utilizam braquetes, todas as técnicas atuais que os utilizam baseiam-se no mesmo sistema desenvolvido por Angle. Hoje, existem diferentes prescrições de braquetes, diferentes tipos e sequências de arcos preconizados, diferentes formas de se amarrar ou “ligar” os arcos aos braquetes e, finalmente, diferentes recursos para se controlar a ancoragem. Entretanto, não creio que o aprimoramento das nossas ferramentas de trabalho tenha sido o maior motivador do avanço da ortodontia como ciência. Afinal, qual a utilidade de uma ferramenta excepcional em mãos sem habilidade e competência para manejá-la?  Neste contexto, destacamos a figura do professor Charles Burstone (1928-2015), que além de contribuir com o desenvolvimento de novas ferramentas (ex. fios de níquel-titânio, de TMA, etc), foi um mestre na arte de ensinar COMO usá-las. Dedicou sua vida acadêmica à compreensão dos princípios físicos e biológicos que governam as respostas dos dentes e seus tecidos de suporte às forças ortodônticas.

Os inúmeros trabalhos de Burstone e colaboradores, incluindo ortodontistas, engenheiros e especialistas em biologia óssea, formam a base científica da BIOMECÂNICA ORTODÔNTICA. Seu nome costuma estar associado à “técnica” do arco segmentado, desenvolvida por ele. Porém, suas contribuições vão muito além do domínio de recursos mecânicos como barras transpalatinas, arcos linguais, arcos de intrusão, cantiléveres, entre outros. A verdade é que enquanto dependermos da relação fio\braquete (ou acessório similar) para movimentarmos dentes, os fundamentos biomecânicos ensinados por Burstone deverão, essencialmente, guiar nossas condutas de diagnóstico, planejamento e tratamento.

É lamentável o rumo que nossa especialidade percorre em vários cantos do país e do mundo, onde os princípios científicos da biomecânica ortodôntica não são adequadamente estudados, ensinados e aplicados. O excesso de comercialização do nosso trabalho tem conduzido muitos profissionais clínicos e pesquisadores na busca de uma “biomecânica ilusória”, na qual braquetes e fios especiais teriam a capacidade de acelerar tratamentos, reduzir desconforto, produzir resultados mais estáveis, etc…Outra tendência atual é a procura por recursos auxiliares que permitam a aceleração da movimentação dentária, tais como aplicação de laser, ultra-som, corticotomia, microperfurações ósseas, entre outros. Obviamente que essas pesquisas são louváveis (graças a elas por enquanto ainda não estamos aplicando esses recursos em nosso dia-a-dia clínico), mas me preocupo com essa ânsia em se acelerar o movimento dentário, quando em muitos casos não se sabe como e nem para onde esses dentes estão se movimentando.

A forma mais eficaz de se “acelerar” uma movimentação dentária consiste na aplicação de um sistema de forças adequado, com boa previsibilidade dos deslocamentos desejados e indesejados, para que recursos adequados de movimentação e controle de ancoragem sejam empregados. Um dos fatos que mais atrasa um tratamento ortodôntico é a movimentação de dentes para locais indesejados ou inesperados. Um profissional desavisado (quem não conhece os ensinamentos de Burstone, por exemplo) poderá perder a maior parte do tempo do tratamento tentando corrigir os efeitos colaterais de sua mecânica mal controlada. É por isso que precisamos saudar, visitar e revisitar os ensinamentos do mestre Burstone. Com eles, você terá enorme capacidade de resolver casos complexos com maior previsibilidade e eficiência. E se um dia os recursos complementares de aceleração da movimentação dentária forem de fato efetivos, você estará apto a utilizá-los com maestria, pois saberá como os aparelhos funcionam e para onde os dentes estarão movimentando-se.

 

DICA DE LEITURA:

O último e excelente livro do professor Burstone: The Biomechanical Foundation of Clinical Orthodontics. Author(s)/Editor(s): Burstone, Charles J.; Choy, Kwangchul. Quintessence Publishing Co. 2015